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Laços e fios

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  Pela teoria dos seis graus de separação, seis laços de amizade são suficientes para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas. É o número de pessoas que te separa do Dalai Lama e de um pipoqueiro da Sri Lanka. Em Minas, comemos palavras e teorias. Dos laços sobraram dois. Em Beagá, existem três pessoas: “eu, você e alguém que conhecemos”. Na trilha de bicicleta, noto a casinha. Uma construção curiosa, com pilar e tudo. Das mãos de Thibau, a água de coco e o dedo de prosa. Trabalhava no Minas Tênis, amicíssimo a Yara, tia da minha esposa, Lili. Conhecia a família inteira. O filho tinha planos de montar ali um entreposto para os ciclistas. “Aceitaremos até cartão de crédito”. Não fosse pelos dez quilômetros restantes de ladeira acima, o papo ganharia a tarde. Era hora de seguir, não sem antes de ouvir: “mande um abraço para Alcides”. Na festa do Haroldo, Yara achou graça: - Não é possível que você encontrou o Thibau em uma trilha de bicicleta! Algumas semanas depois, estou...

Desvendando a Cordilheira dos Andes

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Difícil explicar a decisão por uma cicloviagem sozinho em um lugar de natureza inóspita como a Cordilheira dos Andes. Montanha acima, ar abaixo, sabia que seguiria por dezenas de quilômetros sem cruzar uma alma viva e, ainda assim, as incertezas sucumbiram à intuitiva escolha de também seguir para dentro de mim. O tal caminho interior, trajetória comum de religiões e filosofias. O trecho escolhido percorria 500 km por isolados caminhos de terra no coração dos andes peruanos, seguindo o sul da região da Cordilheira Blanca até a Carretera Central. Apesar do ganho total de elevação de 12.000 m, entre altitudes de 3.500 m e 5.000 m, decidi topar a encrenca. Quando dei por mim, já pedalava pelo entorno do Lago Conococha, início da viagem. Impossível descrever, em palavras, a magnitude das paisagens. Lagos azuis, picos nevados, vales pitorescos e cachoeiras despontavam, a cada curva, como quadros emoldurados. A sutileza da bicicleta permitia uma integração absoluta com o ambien...

VALE de Sombras

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Na era da mídia social, preciosos os refúgios que nos permitem usufruir o silêncio. Em lótus, num templo religioso ou fitando o além, as pessoas descobrem a importância de se colocarem estáticas. Em mim, a presentificação aflora pelo simples contato com a natureza. Um desses esconderijos é o mirante da Serra da Calçada, em Brumadinho, que nem sei se é digno do status pelas dezenas de ciclistas que por lá passam nos finais de semana. Mas é quando a tarde cai que ele se isola. Talvez buscando a própria presentificação, por vezes interrompida pela minha figura solitária. Ficamos os dois ali, com a intimidade de bons amigos que aproveitam o silêncio juntos. Pela proximidade de casa, vemo-nos com certa frequência. Vinte e cinco minutos é o tempo entre colocar a bike no carro, em Belo Horizonte, e as primeiras pedaladas na trilha que leva ao nosso encontro. O penúltimo deles se deu no último pôr-do-sol de 2018. Com o céu mais belo que nunca, sob os pés da Serra, o vale do ...

Em linha reta

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Em linha reta Rua Barão do Rio Branco, Governador Valadares. Não sei quantos anos tinha aquele menino, nem se seria azul o vermelho descascado do quadro que brilha vivo em minha memória. Alguém segurava a garupa. Lembro disso, havia uma garupa. A precoce, tão pequena, ostentava uma garupa. Ou seria uma senhora? E uma mão, que de repente não existia mais. O menino seguia em linha reta, não sabia virar. Mas seguia, com a autoridade de quem andava de bicicleta. Décadas de desencontros, qual não foi minha surpresa quando, de novo, avistei esse menino. Descia com a bike pelo monte esburacado e o faceiro, em disparada, passou por mim. Chamei, mas nem virou o rosto. Desde então, vemo-nos com frequência. Presença certa nas trilhas do Espinhaço, não é adepto de combinações pelas mídias sociais, nem WhatsApp tem. É de supetão que emerge em acrobacias em mim. Diverte-se com nosso temor da nuvem preta com cara de dragão e, no temporal, se agiganta. No barro, nem parece...

Leviatã de alpargatas

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Leviatã de alpargatas Criatura monstruosa de origem bíblica, o Leviatã ocupou o imaginário popular dos navegantes da Idade Média. Inúmeros os relatos dos que cruzaram o temido monstro que naufragava navios oceano afora. Nas palavras de Jó (41:18-22) : “ da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela. Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente. O seu hálito faz incender os carvões. Diante dele até a tristeza salta de prazer ”. Em 1651, Leviatã deu nome à mais conhecia obra de Hobbes, na qual o humano é apontado como um completo egoísta, que, juiz de si mesmo, ignora o interesse coletivo na busca da própria satisfação: “o homem é o lobo do homem”. Para o filósofo inglês, somente uma autoridade maior, centralizada, capaz de regular e punir os indivíduos desobedientes ao Pacto Social traria a paz social. Para esta temida figura, Hobbes valeu-se da metáfora do Leviatã, também conhecida pelos botecos do mundo pela alcunha de Estado. Passados 363 anos, hom...

Pelos quintais da Holanda e Bélgica

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Quem já viveu a experiência sabe que o relato de uma cicloviagem desperta fascínio e surpresa. Se uns veem a prática com admiração, outros acham que falta um parafuso na cabeça daqueles que cruzam fronteiras pedalando, sem onde e quando parar. Lembro-me da indagação de um tio, ao me receber num feriado em Cabo Frio: “não era mais fácil o mineiro vir para a praia de carro?” Agora papai, a ideia de uma cicloviagem em família, levando na bagagem o pequeno Vitor, não foi recebida com menor sobressalto. Mas por que não conjugar brincar com pedalar e viajar? Obviamente, um cicloviajante de três anos requer maior cuidado, trajetos diários menos longos e montanhosos, já que “o excesso de bagagem”, com toda a tralha, beira os quarenta quilos. Se os Andes não eram a bola da vez, as ciclovias da Holanda e Bélgica conciliavam as características ideais para o pedal: planas, seguras e com marcante cultura da bicicleta. Partimos de Amsterdã, capital da Holanda, com destino a B...

O rio, o menino e a lama

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O rio, o menino e a lama Era um fim de tarde em Governador Valadares. Após horas de diversão no areal, a meninada pulou no rio. Aos quinze anos meu corpo debutava com a fartura das águas do Rio Doce. Manoel de Barros faria do instante um poema de poucas palavras. Quanto a mim, guardo o momento como o encontro singular com um rio que nunca foi meu. E que então já era caçoado. “É sujo”, diziam. Mas o rio, que parecia não guardar mágoas, retribuía a minha distância com o líquido que saciou a sede dos meus primeiros dezessete anos de vida. Quimicamente tratado, mas abundante. Se 3/4 do corpo humano é composto de água, o Rio Doce dominava-me. Se nunca foi meu, talvez eu fosse dele. E, sem saber ao certo quem era de quem, certa vez o “rio sem menino” separou do “menino de rio”, que nem menino era mais.  Esqueceram-se. Até que um dia, num certo escritório da capital, entre telefonemas, relatórios e e-mails, o rio desaguou novamente em mim. Não veio em um banho refr...